domingo, 29 de julho de 2012

Aristóteles e Higgs: uma parábola etérea

marcelo gleiser

 

29/07/2012 - 05h03
Aristóteles e Higgs: uma parábola etérea

 

Aristóteles e Peter Higgs entram num bar. Higgs, como sempre, pede o seu uísque de puro malte. Aristóteles, fiel às suas raízes, fica com um copo de vinho.

"Então, ouvi dizer que finalmente encontraram," diz Aristóteles, animado.

"É, demorou, mas parece que sim," responde Higgs, todo sorridente. "Você acha que 40 anos é muito tempo? Eu esperei 23 séculos!" "Como é?", pergunta Higgs, atônito. "Você não acha que..."

"Claro que acho!", corta Aristóteles. "Você chama de campo, eu de éter. No final dá no mesmo, não?"

"De jeito nenhum!", responde Higgs, furioso. "O seu éter é inventado. Eu calculei, entende? Fiz previsões concretas."

"Vocês cientistas e suas previsões...", diz Aristóteles. "Basta ter imaginação e um bom olho. Você não acha que o meu éter é uma excelente explicação para o que ocorre nos céus?"

"Talvez tenha sido há 2.000 anos. Mas tudo mudou após Galileu e Kepler", diz Higgs.

Aristóteles olha para Higgs com desprezo. "Você está se referindo a esse 'método' de vocês, certo?"

"O método científico, para ser preciso", responde Higgs, orgulhoso. "É a noção de que uma hipótese precisa ser validada por experimentos para que seja aceita como explicação significativa de como funciona o mundo."

"Significativa? A minha filosofia foi muito mais significativa para mais gente e por muito mais tempo do que sua ciência e o seu método."

"É verdade, Aristóteles, suas ideias inspiraram muita gente por muitos séculos. Mas ser significativo não significa estar correto."

"E como você sabe o que é certo ou errado?", rebate Aristóteles. "O que você acha que está certo hoje pode ser considerado errado amanhã."

"Tem razão, a ciência não é infalível. Mas é o melhor método que temos para aprender como o mundo funciona", responde Higgs.

"Nos meus tempos bastava ser convincente", reflete Aristóteles com nostalgia. "Se tinha um bom argumento e sabia defendê-lo, dava tudo certo", continuou.

"As pessoas acreditavam em você, mas não era fácil. A competição era intensa!" "Posso imaginar", responde Higgs.

"Ainda é difícil. A diferença é que argumentos não são suficientes. Ideias têm que ser testadas. Por isso a descoberta do bóson de Higgs é tão importante."

"É, pode ser. Mas no fundo é só um outro éter", provoca Aristóteles.

"Um éter bem diferente do seu", responde Higgs. "E por quê?", pergunta Aristóteles. "Pra começar, o campo de Higgs interage com a matéria comum. O seu éter não interage com nada."

"Claro que não! Era perfeito e eterno", diz Aristóteles.

"Nada é eterno", rebate Higgs.

"Pelo seu método, a menos que você tenha um experimento que dure uma eternidade, é impossível provar isso!" afirma Aristóteles.

"Touché, você me pegou", admite Higgs. "Não podemos saber tudo." "Exato", diz Aristóteles. "E é aí que fica divertido, quando a certeza acaba."

"Parabéns pela descoberta do seu éter", diz Aristóteles.

"Existem muitos tipos de éter", afirma Higgs. "E muitos tipos de bósons de Higgs", retruca Aristóteles.

"É, vamos ter que continuar a busca." "E o que há de melhor?", completa Aristóteles, tomando um gole.

Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). É vencedor de dois prêmios Jabuti e autor, mais recentemente, de "Criação Imperfeita". Escreve aos domingos na versão impressa de "Ciência".

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Editorial: O advento de Higgs

Da Folha em 05/07/2012

"A Partícula de Deus" é um bom título de livro, já empregado pelo físico e Nobel Leon Lederman para apresentar o bóson de Higgs. A referência mística, porém, só faz apequenar a descoberta anunciada ontem pelo Cern (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear).

A confirmação da existência dessa partícula fundamental constitui um triunfo da ciência. Vale dizer, da faculdade humana de explicar o mundo apenas com observações da realidade, formulação de teorias e testes empíricos, sem apoio necessário em crenças e valores.

A teoria por trás do bóson de Higgs é o Modelo Padrão. Ele estipula um conjunto de 16 partículas, 12 delas componentes da matéria (férmions, como o elétron) e quatro portadoras de forças (bósons, como o fóton, partícula da luz).

O desenvolvimento e a corroboração do modelo ocuparam a física por ao menos meio século, com enorme sucesso. Todas as partículas previstas acabaram detectadas.
O Modelo Padrão, contudo, enfrentava problemas. Sua matemática não conseguia explicar como as partículas poderiam ter massa, coisa que se sabia possuírem. Teoricamente, viajariam todas pelo éter à velocidade da luz, imponderáveis como o lume de estrelas.

Faltava algo. Entraram em cena seis físicos -entre eles Peter Higgs, que daria nome à partícula- de três grupos de pesquisa na Escócia, nos EUA e na Bélgica.

O sexteto lançou em 1964 a hipótese de um Universo embebido em uma quinta variedade de bóson. Seriam partículas invisíveis com o poder de dotar as outras de massa, como um líquido viscoso a dificultar seus movimentos.

A detecção do bóson de Higgs dependia, porém, de imensos aceleradores de partículas, como o LHC do Cern. Essas máquinas poderosas promovem trilhões de colisões entre pedaços de átomos, na expectativa de que a análise dos estilhaços permita garimpar pepitas como a de Higgs.

Os pesquisadores do Cern se dizem convencidos de que encontraram o elo faltante -ou, pelo menos, "um" bóson de Higgs. Pode haver outros, caso em que o modelo pediria nova reforma. Assim, aos poucos, avança a ciência humana.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Redes sociais. Ainda há mais por vir.

Ok. Estamos vivendo uma era social. Todos compartilhado ideias e sentimentos. Será que estamos chegando ao ápice desta onda? Acho que a tecnologia pode levar o atual desenvolvimento da chamada "web 2.0" a um novo nível.

Vamos imaginar o seguinte cenário. Em um futuro próximo teremos câmeras anexa em nossas roupas, ou óculos se preferirem. Nossos smartphones terão sistemas de geolocalização ativos e assim, imediatamente pessoas próximas fisicamente a voce poderão saber, por exemplo, suas atividades naquele momento.

Se voce está ouvindo uma música ou vídeo e alguém perto curte o estilo, ela vai curtir voce. Imagina isso. Esteja no metrô e de repente ouvindo aquela música que só você acha legal, mas perto da sua localização uma pequena galera, uma tribo, tem uma afinidade inesperada. Ou lendo uma notícia ou visitando um site, outras pessoas possam ver está atividade, achar o conteúdo interessante e num piscar de olhos, tornar-se um formador de opinião das massas.

E as câmeras? Sim, começamos este assunto falando sobre elas. As pessoas transmitindo áudio e vídeo em tempo real, uma novela do seu eu 24 horas. Informações sobre clima, trânsito, eventos. Tudo absolutamente. Reconstrução de lugares virtualmente através das imagens captadas por centena de milhões de olhos.

Entrar numa loja e saber o que os clientes estão comentando... Ou talvez nem entrar, dependendo da recepção virtual. Uma festa flashmob a qualquer momento, bastando aquele clima local pintar com quem estiver por perto. Nossos comportamento, costumes, sociedade. Tudo muda. Tudo.

Só quero estar preparado pra isso!!!


quarta-feira, 7 de março de 2012

Ao amigo MS-Win

Caro amigo, voce é mais jovem que eu, mas é de uma boa geração, que conheceu os primeiros computadores pessoais, como os desejaveis tk 80 e tk 85, passando pelos prologicas cp500 e 400color e os MSX's maravilhosos. Essa geração programou em assembler dos Z-80 e se encantou com o Amiga de 32 bits numa epoca que os pc's tinham parcos 16. Usamos o DOS e o windows 3.1. Trabalhamos com Basic, Pascal, Fortran, Cobol. Por tudo isso sabemos o que é um bom software e hardware.

Se um Mac é um equipamento superior é porque soft e hardware são perfeitamente casados. Se o windows é por enquanto o mais usado é porque fabricantes de pc's e periféricos desenham suas maquinas sobre medida do SO. Quando se fala que o linux é bugado, isso é devido a distribuições linux tremendamente mal elaboradas (satux e cia)... Mas o linux em si é o estado da arte dos SO's. Melhor inclusive que o pai-de-todos UNIX, porque seu codigo é constantemente revisado pela comunidade. Pense em distribuições como Suse, Ubuntu, Mint, Chrome OS, Android e forks associados dentre outros. Essas distros são para os usuarios basicos... Quanto a software de produção, pense em qualquer um que tenha no Win, haverá vários equivalentes para linux, que fazem as mesmas coisas usando caminhos diferentes. Mas somente o Linux te dá a liberdade de ir além do software. Ele te dá acesso aos meandros do sistema. Voce decide o que ele tem que fazer.

As pessoas pensam que o windows é pratico, mas não é. Ele te consome tempo e te dá pejuizo. Quem nunca formatou uma maquina win, como alguem que faz uma sangria para curar um resfriado? Firewalls, anti-virus, otimizadores de memoria... Todos pagos e que deixam seu computador mais lento... Realmente frustrante.

A tendencia no futuro parece promissora. Estamos caminhando para uma era em que os serviços são pagos e não mais o software. Que o código aberto permite uma colaboração mais dinâmica. Que um SO é irrelevante e que a web é um proprio SO. A historia é uma linha ferrea e quem perder esse bonde não terá outro para aguardar.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Propriedade Intelectual

ARTIGOS DE OPINIÃO
Propriedade Intelectual

Marli Elizabeth Ritter dos Santos é diretora do Escritório de Interação e Transferência de Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. No dia 13 de julho, foi a principal palestrante da mesa redonda intitulada "O Paradoxo do Sigilo no Universo Acadêmico: Defesa de Tese Aberta versus Fechada, Proteção versus Publicação e a Relação de Confidencialidade na Parceria com as Empresas", que ocorreu no Rio de Janeiro durante o sétimo encontro da Rede de Propriedade Intelectual, Cooperação, Negociação e Comercialização da Tecnologia. A Repict, uma das redes temáticas da Rede de Tecnologia do Estado do Rio (www.redetec.org.br), reúne especialistas em propriedade intelectual. O texto que publicamos resulta da transcrição da provocadora apresentação de Marli Elizabeth, que toca em temas atuais para a universidade brasileira, cada vez mais chamada pela sociedade a se integrar ao esforço de desenvolvimento econômico do País. Além de publicar a transcrição - gentilmente cedida pelos organizadores do VII Encontro da Repict -, Inovação Unicamp também oferece à atenção dos leitores artigo publicado na revista Science em que se debatem os impactos do Bayh-Dole Act sobre as universidades norte-americanas.
O Bayh-Dole Act é um marco de referência.
No debate sobre o sigilo no universo acadêmico, o Bayh-Dole Act norte-americano (editado em 1980) se tornou um marco de referência, por tratar da transferência de tecnologia e da propriedade intelectual nas universidades. O grande avanço do Bayh-Dole Act foi permitir à universidade reter os direitos de propriedade intelectual sobre o resultado de pesquisas desenvolvidas com recursos federais. Até ali, era o governo federal o proprietário dos resultados advindos dessas pesquisas; houve então a percepção de que, dessa maneira, o conhecimento gerado não estava sendo adequadamente transferido para o setor empresarial, não se transformava num produto comercializável - o que impedia a sociedade americana de ter acesso a esse benefício. Uma ampla discussão foi iniciada no sentido de reverter essa situação. O Bayh-Dole Act deu o direito às universidades de reter os direitos de propriedade intelectual sobre a pesquisa; também descentralizou decisões e propiciou uma maior disseminação do conhecimento e sua transferência para o setor empresarial. O Bayh-Dole Act incentivou fortemente a colaboração entre universidades e empresas, reconhecendo a força da comunidade acadêmica na produção do conhecimento e a força da indústria na transformação desse conhecimento em um produto comercial. Nesse contexto, a lei estabelece como premissa fundamental o dever de proteger antes de publicar - mantém o sigilo. Outro aspecto do Bayh-Dole Act é tornar obrigação legal das universidades a comercialização da tecnologia do resultado de pesquisa. Para poderem reter o direito de propriedade intelectual, as universidades norte-americanas assumem o compromisso com a comercialização desses resultados. Esses são apenas alguns dos aspectos da lei, que vem sendo modificada para superar falhas. Da mesma maneira, a nossa Lei de Inovação pode ser vista como um primeiro passo, no sentido de podermos aperfeiçoá-la à medida em que a operacionalização dos procedimentos nos mostre o que precisará ser aperfeiçoado. O modelo que o Bayh-Dole Act estabeleceu vem sendo seguido por vários outros paises, como China, França, Coréia, Alemanha, implementando normas no sentido de como regulamentar a propriedade intelectual e a transferência de tecnologia nas instituições de pesquisa.
A maior exploração dos temas de propriedade intelectual causou mudanças no universo acadêmico? Sim. Em primeiro lugar, chamou a atenção para a questão do direito da propriedade intelectual. Como acontecia a relação universidade-empresa, até bem pouco tempo atrás? Do lado acadêmico, a preocupação com o direito da propriedade intelectual praticamente inexistia. De um modo geral, as empresas ficavam com a patente, porque esta não era uma preocupação da universidade. Mais recentemente, a questão se incorporou à rotina universitária, e passou a ser um ponto importante de discussão e de negociação dos projetos cooperativos realizados com empresas - o que mostra já uma mudança. A lei norte-americana trata também do licenciamento de tecnologias e patentes - esta sim, uma variável nova, que introduziu uma variável de negócio no ambiente acadêmico e efetivamente trouxe consigo necessidade de mudanças em procedimentos, e a introdução de novos valores na rotina acadêmica. Com a intensificação do patenteamento, uma nova dinâmica passou a ser incorporada na própria prática da pesquisa. Até bem pouco tempo atrás, os nossos pesquisadores (e ainda hoje um grande número deles) não consultavam bases de patentes para estabelecer os seus projetos de pesquisa; com a preocupação de proteger os resultados, essa prática deve ser incorporada efetivamente para que se possa aferir melhor a novidade daquilo que vem sendo produzido na universidade. Um outro aspecto, bastante interessante, que está sendo introduzido pela Lei de Inovação, é a questão do compartilhamento dos ganhos econômicos com os pesquisadores. Eu diria até que o decreto 2.553, de 1998, já introduziu a possibilidade na nossa legislação; ele induziu as universidades a organizarem algum organismo dentro de sua estrutura para poder usufruir desses benefícios e concedê-los a seus pesquisadores. No conjunto dessas ações, apareceu a questão do sigilo e dos acordos de confidencialidade.
Diante desse novo contexto, o primeiro impasse que o pesquisador vive é: publicar ou proteger? No ambiente acadêmico, sempre houve a primazia da publicação sobre o patenteamento. Historicamente, a publicação tem sido a forma pela qual a instituição acadêmica avalia o prestígio do pesquisador, seu mérito acadêmico. A publicação é essa medida. Patente nunca foi considerada um produto acadêmico; como tal, não trazia o mesmo reconhecimento de mérito do pesquisador. Esse é o primeiro ponto: sempre houve uma primazia da publicação. Mas em função das mudanças na nossa legislação e da introdução dessas novas variáveis na rotina acadêmica, já existe um grande movimento no sentido de avaliar a patente como um produto acadêmico. Alguns comitês assessores dos órgãos de avaliação, da Capes e do CNPq já têm considerado patentes como resultados acadêmicos. Nem sempre o peso dado à patente, no entanto, é coerente com o esforço desenvolvido pelo pesquisador para depositar e para conseguir a patente. Muitos comitês têm adotado o critério de dar a uma patente depositada, o mesmo peso de uma publicação indexada em periódico internacional - o que nem sempre é justo. Também não existe um conhecimento disseminado e um reconhecimento da importância estratégica de uma patente para universidade como patrimônio institucional - o que decorre de uma falta de conhecimento. É preciso um grande esforço de disseminação e de sensibilização da comunidade universitária em relação a esse tema.
Outra questão que os pesquisadores se colocam é por que precisam proteger antes de publicar, se existe na legislação brasileira o chamado "período de graça", que permite ao pesquisador proteger a sua invenção por um período de até doze meses. O "período de graça" só existe na nossa legislação e em mais dois ou três países. Por isso, o "período de graça" pode ser uma armadilha, um risco muito grande para tecnologias novas, que possam vir a ser comercializadas em países em que não se aceite o "período de graça" - isso invalidaria a patente. O melhor procedimento é: primeiro proteger, e depois publicar. É possível fazer isso; no entanto, não basta apenas uma política escrita, ou um escritório de transferência de tecnologia, um núcleo de propriedade intelectual, implementar e difundir o procedimento, se essa política não se inserir nos princípios das políticas institucionais de pesquisas e nas políticas governamentais. A inserção dessa diretriz é fundamental para respaldar a ação dos gestores de propriedade intelectual, sem o quê efetivamente não surtirá os efeitos buscados.
Em uma instituição que sempre teve a disseminação do conhecimento como um de seus objetivos falar em sigilo é considerado, por muitos, como privatização do conhecimento. Essa questão se reflete muito nas práticas de pós-graduação. Quando o coordenador de uma pós-graduação está diante de uma tese ou uma dissertação com alto conteúdo tecnológico - que poderia ser protegido -, há sempre um impasse. Como ele poderá proteger esse conhecimento se as normas de pós-graduação estabelecem que um dos requisitos para obtenção de um título é a realização de uma defesa pública? Algumas instituições têm se perguntado sobre fazer a defesa de forma fechada, o que tem causado conflitos - porque fere os princípios. A alternativa que tem surgido é fazer a defesa pública da tese, mas tomar o cuidado de proteger antes. Mesmo assim, é preciso tomar alguns cuidados - um deles, solicitar que a banca assine um termo de confidencialidade para que esteja ciente de que aquele é um conteúdo altamente confidencial e protegido; durante a própria defesa pública, dados importantes não poderiam ser revelados. Finalmente, depois de concedido o título deve haver algum dispositivo que impeça o acesso de terceiros à tese depositada na biblioteca.
Outro aspecto correlato diz respeito à evasão de conhecimento. Nossos estudantes que vão se pós-graduar em universidades estrangeiras assinam um termo de compromisso renunciando à propriedade do conhecimento que ele gerar em favor da instituição. Parte dessas teses, principalmente na área de fármacos, é sobre plantas que usam a nossa biodiversidade. Esse conhecimento fica protegido no exterior e provoca uma evasão de conhecimento.
Finalmente, há a questão da confidencialidade nas parcerias das universidades com empresas privadas. As universidades preferem publicar em cumprimento do compromisso de sua missão disseminadora de conhecimento. As empresas, por sua vez, desejam limitar as publicações para proteger sua posição competitiva. Como conciliar essas duas formas tão diferentes de encarar o sigilo e a confidencialidade? A universidade, para poder contribuir com a empresa no desenvolvimento de um projeto cooperativo, precisa assegurar a ela um compromisso com o sigilo nas questões fundamentais para o parceiro empresarial. Muitas vezes é necessário que toda a equipe trabalhando no projeto assine termos de confidencialidade. Mas para a universidade justificar sua ação naquele projeto de pesquisa, é preciso assegurar que o conhecimento genérico desenvolvido no decorrer desse projeto possa ser utilizado para fins de ensino e pesquisa. Uma possível solução é a universidade negociar o compromisso de dar à empresa o direito de revisar o artigo, ou retardar sua publicação por um período, até que seja analisado e eventualmente depositada uma patente de interesse da empresa.
Os gestores de propriedade intelectual e transferência de tecnologia têm enfrentado esses problemas no dia a dia de suas atividades. É preciso debater e encontrar caminhos.
Nota do Managing Editor: Este texto foi publicado anteriormente pelo Boletim Unicamp Inovação (http://www.inovacao.unicamp.br), edição de 05 de agosto de 2004. O artigo publicado na revista Science, no qual são debatidos os impactos do Bayh-Dole Act sobre as universidades norte-americanas, pode ser acessado em:http://www.inovacao.unicamp.br/report/inte-science.shtml

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Folha.com - Hélio Schwartsman - Mais rápido que a luz - 06/10/2011

hélio schwartsman

06/10/2011- 07h00

Mais rápido que a luz

No que pode ser a mais importante notícia científica das últimas décadas, pesquisadores do Laboratório Nacional Gran Sasso, na Itália, anunciaram ter flagrado partículas subatômicas com massa viajando em velocidades superiores à da luz.



No experimento Opera, cientistas lançaram neutrinos (partículas elementares cuja massa é muito pequena, mas maior do que zero) do Cern (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear), que fica na fronteira entre a Suíça e a França, rumo ao laboratório italiano, percorrendo uma distância de 730 km por túneis subterrâneos.



De acordo com a equipe do físico Antonio Ereditato, as partículas concluíram sua jornada 60 nanossegundos (bilionésimos de segundo) antes do que deveriam caso a velocidade da luz tivesse sido respeitada. ªFicamos chocadosº, declarou Ereditato à revista "Nature".



Não foram só eles. Cientistas de todo o mundo receberam a notícia com descrédito. Pelo menos por ora, preferem atribuir os resultados a algum erro no experimento. Têm bons motivos para isso. Pelo que pude constatar em artigos e blogs da comunidade de físicos, a maioria, aqui incluídos os próprios autores do trabalho, acha mais prudente esperar que esses resultados sejam reproduzidos por outros grupos antes de considerá-los válidos. Dois laboratórios, o Fermilab nos EUA e um outro no Japão, têm capacidade de reproduzir alguma versão do experimento. Isso, entretanto, exigirá tempo. Fala-se em algo como um ano.



Se os resultados da equipe italiana são corretos, boa parte da física produzida no século 20 precisa ser revista. Uma vítima potencial é a teoria da relatividade especial do físico alemão Albert Einstein (1879-1955) --a do famoso E=mc2--, que postula que partículas com massa não podem ser aceleradas para viajar mais rápido do que a luz (os fótons, as partículas de que a luz é feita, ao contrário dos neutrinos, não têm massa). As implicações não têm nada de trivial. Se a velocidade da luz pode ser violada por um neutrino, a forma como o Universo processa informações fica bagunçada. Torna-se em princípio possível que efeitos precedam suas causas, o que literalmente vira o Universo de pernas para o ar. Para os que gostam de enfatizar o lado prático, abrir uma agência de viagens no tempo começa a parecer uma boa oportunidade de negócios.



Em termos mais convenientemente acadêmicos, o próprio impacto da descoberta, se confirmada, vale frisar, ainda não está claro. Victor Stenger, por exemplo, sustenta que os axiomas básicos da relatividade especial e suas equações não saem arranhados. Bastaria, segundo o autor de "The Fallacy of Fine-Tuning", retirar da teoria o princípio da causalidade (a noção, secundária na teoria, de que causas vêm antes de efeitos) que tudo fica bem.



Já Brian Greene, da Universidade Columbia, vê implicações mais profundas. Para ele, a confirmação do neutrino superluminal nos forçaria a rever nossas ideias básicas sobre como o Universo funciona. Stephen Perke, chefe da física teórica do Fermilab, antecipa uma possível solução para o problema: os neutrinos tomaram um atalho por outras dimensões espaciais, o que lhes permitiu viajar mais rápido que a luz.



É aqui que as coisas começam a ficar interessantes. Deixo para os físicos a discussão sobre o que pode estar ocorrendo, se é que há de fato algo ocorrendo, e me concentro num tópico de filosofia da ciência, que é, como veremos mais adiante, o debate entre realistas e instrumentalistas.



Quando Perke recorre a dimensões extras para explicar a possível anomalia, ele está oferecendo uma solução matemática. Isso é não apenas esperado como também necessário. A imbricação entre física e matemática é total, entre outras razões porque nós só conhecemos aquilo que podemos medir, para roubar o bordão de Marcelo Gleiser em ªCriação Imperfeitaº, sobre o qual já escrevi uma resenha.



Ocorre que não são poucos os que acusam a física contemporânea, em especial a física de partículas e os teóricos das supercordas, de estar criando um universo de abstrações matemáticas que não têm como ser testadas no atual estado da nossa tecnologia (o que não seria um pecado muito grave) e nem em princípio (o que garante a danação eterna para um físico). De acordo com esses críticos, esses ramos da física estariam se aproximando perigosamente da metafísica e das religiões.



Que algumas teorias se tenham tornado altamente abstratas e radicalmente inverossímeis é indiscutível. No excelente "The Hidden Reality: Parallel Universes and the Deep Laws of the Cosmos", Brian Greene descreve (e de uma maneira quase compreensível) nada menos do que nove versões de multiverso, isto é, da ideia, para muitos extravagante, de que existem realidades paralelas. De acordo com alguns desses modelos, há mundos em que diferentes versões de você estão neste exato momento lendo esta mesma coluna; em outros, o seu eu paralelo está lendo a coluna, mas ela não trata de física e sim de filologia gótica. O número de realidades paralelas pode ser infinito, ou pelo menos absurdamente grande (maior do que o total de átomos no ªnosso Universoº), abarcando todas as histórias possíveis, isto é, todas as possibilidades concebíveis que não violem as leis da física.



Em outros modelos, universos paralelos brotariam como bolhas de sabão, resultado de flutuações quânticas submetidas a uma expansão ultrarrápida conhecida como inflação cósmica. Combinações desses diferentes nove tipos não estão descartadas. Algumas das propostas são tão complicadas que até as religiões parecem mais lógicas. Mas, ao contrário das fés, esses modelos estão calcados em sólida matemática e nenhum deles sugere que faça sentido rezar para realidades paralelas. Se há uma característica notável nos universos alternativos é que eles interagem muito fracamente com o nosso, quando e se de fato o fazem.



A questão que fica é: dá para acreditar nessas coisas? É aqui que entra a polêmica entre realistas e instrumentalistas. Para os primeiros, que incluem autores consagrados como Greene e o israelense David Deutsch, a resposta é sim. Universos paralelos existem e devemos acreditar neles porque é aonde as equações nos levam. Mais do que isso, já contamos com algumas evidências empíricas, como o fenômeno da interferência quântica. Com o tempo, afirmam, mais provas deverão acumular-se e provavelmente um dia teremos explicações completas que tornem essas realidades menos contra-intuitivas.



Em favor de seu caso, lembram que não havia ideia mais estranha do que a de que a Terra se move em altíssima velocidade em torno de seu próprio eixo e também do Sol. Afinal, o que vemos é o Sol cruzando os céus e não sentimos estar em movimento. Foi a matemática de Copérnico e Galileu que nos levou ao paradigma heliocêntrico, que hoje não recebe contestação.



Para os realistas, ainda que aos trancos e barrancos e sujeitos a erros, o que a matemática revela é real e os modelos científicos descrevem o mundo, o tecido de que é feito o Cosmo. A eles opõem-se os instrumentalistas, para os quais a realidade é, no fundo, incognoscível. Tudo o que a ciência pode nos oferecer são previsões corretas e é a elas que devemos nos ater. Uma teoria é tão boa quanto as previsões corretas que ela consegue fazer. Vale lembrar que a própria matemática, na qual a física se funda, é bem menos consistente do que gostamos de imaginar, como o demonstrou Kurt Gödel com seus teoremas da incompletude. A decorrência é que a própria lógica repousa sobre uma série de pressupostos filosóficos que não temos como justificar.



É um debate apaixonante no qual, pelo menos por hora, me abstenho de tomar posição. E ele ganha especial relevância numa situação em que uma ideia fundamental da física moderna pode ter sido contradita por um experimento. Se o neutrino apressadinho for de fato confirmado, os próximos meses e anos deverão ser epistemologicamente emocionantes.




Hélio Schwartsman
Hélio Schwartsman, 44, é articulista da Folha. Bacharel em Filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha.com às quintas-feiras.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Tributo ao Google.



Quem me conhece sabe que sou um evangelizador do google. E só não sou de carteirinha porque não sou funcionário de lá, e nem tenho intenção de ser. Quem me conhece sabe que meu negócio eh a Academia.

Mas eu tiro o chapéu para o google sim. Por quê? Ora seus ingratos, veja como era nossas vidas antes do google. Tínhamos computadores, o Windows, o Office, muitos dados... disquetes e cds (caros na época) e de repente veio a internet ... e muita gente achava que era apenas uma febre passageira, uma curiosidade.

E a internet era chata mesmo. As pessoas tinham websites, haviam hospedagens gratuitas (lycos, fortunecity, yahoo, cjb, netfirms... e outros que injustamente esqueci)  e... claro, emails. Mas era uma fronteira desconhecida, como um deserto se comparado com hoje.

O interessante eh que conseguíamos viver bem, num ritmo bem mais calmo que o atual. Pouca gente tinha celular (que só servia pra falar) e dispositivos moveis ainda era ficção científica. Ok mas se a vida estava tranquila, havia a necessidade de organizar uma tremenda gama de conhecimento cada vez mais crescente, devido a informatização da sociedade. O processo foi natural, a vida ficou mais agitada, mas vamos levando conforme a dança.

Tá, mais e daí... o que aconteceu? A Microsoft simplesmente ignorou a internet. A Apple estava interessada numa nova mídia chamada mp3. Mas veio o Yahoo e foi bom. Sabe o que acontece no capitalismo? As empresas visam o lucro acima de tudo. Elas precisam vender, vender... acima de tudo, vender. E quando o lucro se torna conseqüência, e não o objetivo?

Esse novo paradigma foi iniciado por um site de busca chamado GOOGLE. O google passou os outros devido a um motor de busca revolucionário, quase humano. E assim começou a indexação da informação do mundo. Mas tínhamos o Yahoo e outros. Então por que o google? Porque o google não parou ... eles viram que podiam fazer mais, e nos trouxe o gmail, com inicialmente 2 gigas de armazenamento (ao invés de parcos meguinhas de nossos servidores de email). Depois veio o google earth. Podíamos ver o mundo todo literalmente, pela primeira vez em detalhes, e de graça. Ai vieram outros melhoramentos na busca, como o google acadêmico, google livros, noticias... Eles compraram o Youtube e deram a infraestrutura necessária para ser o que eh hoje. Nos deram também o google docs, uma opção gratuita e online da suite office, e ainda desenvolveram o Chrome, um navegador absurdamente rápido e com os plugins necessários para entrar na internet sem engasgos. E quanto a mobilidade, desenvolveram o android, sistema operacional para celulares, o qual está permitindo fazer essa postagem através de um telefone.

Fora isso, há outras iniciativas menos conhecidas, como o sistema de alerta a catástrofes e de ajuda imediata, o veículo auto conduzido, as campanhas de eficiência energética e outras. Aí as outras foram atrás, mas sem o mesmo espírito inovador. Igual ao que o google fez, apenas a apple com seus gadgets da moda.

Agora há um novo paradigma: a web social. Chama-se hoje de web 2.0 com toda propriedade. Não eh mais a busca importante mas as relações interpessoais. Assim como o Yahoo era líder nas buscas, hoje o Facebook toma frente nas sociais. Mas como na época da web 1.0, as redes de relacionamentos são uma bagunça sem muito propósito. O google novamente tenta por ordem no caos com o google+ e colocando uma camada social nos seus produtos. E por isso mesmo, espero que a produtividade supere a perda de tempo e o ócio. Os ingratos da mídia continuam a esnobar o google, o qual usam e dependem tanto, pra colocar o Facebook no altar. O site eh bom, mas não eh a solução dos nossos problemas (talvez os afetivos, quem sabe...) . E o Facebook não está tomando nenhuma iniciativa para melhorar as nossas vidas, pelo contrário, estamos perdendo mais tempo com as "inovações" que tentam nos manter mais tempo na sua homepage. Como ja foi dito antes. Ao acordamos um dia e não houver mais Facebook, bola pra frente. A vida continua. Mas se um dia o google sumir, então corramos para os abrigos subterrâneos, pois o fim do mundo não tardará a chegar.